Textos

Crônicas

Veja a seguir os textos mais recentes sobre Miúcha:

Declaração de amor em forma de crônica

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Miau Music Produções Musicais

Miúcha traduziu como ninguém a esperança de um país melhor, de um mundo melhor, e sua ferramenta, a canção, se embrenha em sua alma e subitamente não sabemos onde começa o imenso mundo dos afetos e termina o roseiral de Miúcha.

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u que ando sorumbático e discreto, falando pouco e respirando muito, uso este espaço público – sim, a praça ainda é do povo, embora pouco se produza literatura por estes papiros virtuais -, para apenas dizer. Sim, dizer que produzir o projeto do site-acervo da cantora e compositora Miúcha, nestes seus 40 anos de carreira, é uma felicidade profissional rara, e ao mesmo tempo de extrema responsabilidade. Porque Miúcha, pensemos juntos, dedicou-se a um projeto especial, e particular, por meio da música brasileira que lhe coube: a “alegria” como condição e possibilidade para toda uma geração que a ouviu, que aprendeu com ela a “falar de amor”, a entender que “a vida tem sempre razão”, embora tropecemos por vezes no carinho, “juntando tudo o que é seu, saindo do caminho”… e às pressas, claro, porque a “tortura” há de ser sempre Sublime para a Miúcha do Bororó, e por isso a luz dos olhos nossos, com os dela, precisa sempre se casar…

Poucas vezes vi Miúcha sem um riso no rosto. Mesmo em dia de temporal. Mesmo em luto de passarim que resolve virar Urubu celestial deixando a parceirinha sozinha. Sozinha numas, porque sempre chega a “Turma do Funil” e daí…”Segura a coisa” que ela quer ver. E vê. Enxergar também confere fisicalidade à interpretação inteligente de Miúcha. Ninguém entendeu e cantou Olhos nos Olhos, na exata semântica da canção como Miúcha ao lado de Tom. Porque Tom a amava, e aquela amizade podia, sim, pegar-se cantando sem mais nem porque…

Miúcha traduziu como ninguém a esperança de um país melhor, de um mundo melhor, e sua ferramenta, a canção, se embrenha em sua alma e subitamente não sabemos onde começa o imenso mundo dos afetos e termina o roseiral de Miúcha. Porque Miúcha sempre continua. E os afetos lhe são notas, cifras, frases consentâneas que nos ensinam, carinhosa e generosamente, a disciplina do amor, os esforços que o afeto requer, e tudo aquilo que uma geração que ouviu Miúcha em sua inteireza, e a apreendeu animicamente, sabe exercer sem titubear: a amar a vida, a si, as belezas das coisas mais simples, a amar o outro em sua condição real de igualdade.

Miúcha não teve tempo de se urdir em fantasias de Diva, porque lá fora havia o mar, e no mar havia Tom, Donato, Baden, entre botos e caboclas espargindo-se em correntezas de rios e mares…mares onde deságuam, e se firmam em sólido rochedo ancestral, sua integridade e sua coerência como intérprete à serviço de nossa arte como forma de se democratizar o conhecimento. E a obra de Jobim é uma natureza do conhecimento, assim como o amor cantado e ensinado por Miúcha, passo a passo e no exato tempo da delicadeza, se incutiu como cultura na cabeça de muitos de todos nós. Muitos e muitos, sem exagero.

E discretamente, radiografou com sua música a felicidade de um país, e desenhou sua história que, todos sabemos, está tatuada na memória afetiva de todo brasileiro que saiba e goste de amar.

Porque… Miúcha, se a gente cair em seus braços não há despertador, e nem Big Ben, que nos façam acordar…

O retrato de Miúcha quando compositora

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Miau Music Produções Musicais

Foto: Carlos Horcades

Miúcha compôs pouco. Costumam classificar estes artistas como “bissextos”, no segmento específico em que sua atuação geralmente tende a ser singela em quantidade – porém fundamental em muitos dos casos (vide a obra literária de Raduan Nassar, que escreveu “apenas” três livros; ou João Gilberto, cujos “Bim Bom” e Ho-ba-la-lá” já dispensariam qualquer esforço inútil de se procurar outras peças para fins de “songbook”.).

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nfim, Miúcha compôs cerca de dez canções (dentre elas, uma inédita, letra para composição de Tenório Jr.(“Solidão”), embora gravada em época de estúdio de seu LP “Miúcha”, de 1989, mas não lançada; e outra uma versão para um clássico de Pablo Milanés, “Para Viver”, presente neste mesmo LP).

Nessa atividade, Miúcha sempre teve uma atuação discreta, porém relevante, se considerarmos sua aparição como “compositora” em 1961, no disco de Sérgio Ricardo, como parceira do poeta Carlos Queiroz Telles, na canção Dorme, Dorme, Menininha, em fase de transição do cantor e compositor niteroiense em que, em sequência abrupta, radicalmente assume a bossa nova como estética, e se desdobra como compositor de trilhas de filmes históricos de Glauber Rocha; Sérgio Ricardo era, para muitos, um cantor romântico – e poderia continuar sendo, mas seria pouco para uma poética tão promissora. Logo, este acalanto soa como um afago musical à moda Caymmi, já prenunciando a “diversidade” interpretativa a ser aderida por Sérgio, que doravante não se fixaria apenas na temática romântica (ao invés de “eu não gosto mais de mim”, esse “apenas amor” seria o primeiro passo para o salto às “arrebentações” que estavam à iminência de um óbvio porvir).

E Miúcha está nessa passagem interessante da discografia de Sérgio Ricardo, debutando no âmbito discográfico como compositora (já fazia jingles para o setor de publicidade da Colgate Palmolive nesta época).

Em 1979, seu samba Triste Alegria figurou no repertório do disco com Jobim – e em gravações caseiras, de ensaio, Jobim mostra seu entusiasmo por este samba sincopado (cuja letra é uma subversão da autocomiseração peculiar à maioria de todo “eu-lírico feminino”, quando a “triste alegria” da “mulher toda errada” chora em cantoria (ao invés de se estagnar em esteriótipos lamuriosos atribuídos ao discurso feminino na música brasileira pré-bossa nova especialmente), e responde em ação tal qual aquela que segue se “esmolambando e cantando na batucada da vida”, de um Ary Barroso moderníssimo e despercebido que, com Jobim, inclusive, Miúcha deu a interpretação certeira.

Em seu primeiro disco considerado “solo”, de 1980 (RCA) – quando “solo” nunca foi condição essencial para o trabalho artístico de Miúcha, sempre a se rodear de músicos e amores de primeiríssimo time –, sua composição Todo Amor abolera versos sobre amores vividos e deflagrados sempre iguais em “muitas prosas” e “luz negra” ao invés de poesia e clarões: daí a sacada poética de uma Miúcha letrista de alta poesia – aquela que enxerga “obviedades” no breu e os traz à tona, para a gente pensar e se lembrar da primitividade das coisas e, principalmente, do amor: “eu acabo te encontrando em qualquer um que encontrar”. Pois como depois revelou seu irmão também poeta, “mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons”. E por isso Miúcha talvez seja uma das melhores intérpretes desse choro bandido de Edu Lobo e Chico (que, em depoimento a mim, foi uma das que mais lhe deu prazer em estudar para interpretação, e cujo vídeo você também pode acessar nesse Canal e nessa página).
Porque Miúcha, como “letrista bissexta”, sabe que, miseráveis, e como cegos, os poetas podem ver na escuridão. Então ser poeta é outra coisa, bem mais ampla que os limites impostos pela “obra escrita”, e aí o papo é com o professor Antônio Cândido, Tom Jobim, e com qualquer pessoa que saiba escrever ou dizer coisas que sejam precisas e elucidativas em tempos de sombra (seja como for e doa a quem doer).
Já para o bloco “Segura a Coisa”, de Olinda, Miúcha compôs o hino homônimo para a galera (1975), e a questão política acerca da maconha, levantada e discutida, pode ser conhecida na entrevista disponível neste link do Canal Miúcha Buarque (acesse https://www.youtube.com/watch?v=fXKIiDSIuvU); e também a marcha “Carnaval de Olinda”, ambas presentes no compacto lançado em 1982, produzido pelo incansável agitador cultural e amigo Homero Ferreira (que produziu muito para a cultura popular, e é preciso lembrar sempre).

Sem esquecer, obviamente, de suas incursões como letristas em experimentos com compositoras japonesas, sempre ávidas pela poética brasileira, essencialmente, por parceiras conhecedoras da bossa-nova como “estética”, de prosódia e musicalidade dominadas amplamente por Miúcha: com Taeko Onuki compôs a atraente Berimbau do Bem, no qual, imageticamente, o “Bim Bom” de João Gilberto parece brincar com “Berim Bom / Berim Bem / Berim Bambu (…) / Berimbau Bom / Bim Bom”, em inconsciente diálogo com o também Berimbau de seu parceiro de arte e vida Vinicius de Moraes…esse que, inclusive, também tinha uma forma de compor especial, que Miúcha logo tratou de fazer aflorar em disco: o poeta como “letrista e melodista de suas próprias canções”, como bem ela o fez ao estourar, com Jobim, em 1977, o “Pela Luz dos Olhos Teus” (em ritmo valseado, ideia de Tom), e depois retomar todo o conjunto de obra de Vinicius “cancionista solo” no CD Miúcha canta Vinicius & Vinicius – Música e letra (Biscoito Fino – 2003).

Com João Donato, parceiro de sempre e de vida e arte, compôs Tempo de Amar, sempre apresentada em shows dos anos 90, mas somente gravada no disco de 2002, “Miucha.compositores”, pela Biscoito Fino.

Com Cacaso, sei que fez música, mas inacabadas, ou no aguardo de serem concluídas (talvez, para Miúcha, fazer música com Cacaso sem Cacaso seja como para Chico, que sempre reitera não haver sentido para ele letrar inéditas de Tom Jobim sem Tom Jobim para ouvir). Aí está outra atitude natural de poeta diante de sua função de artista. “Canção do Desamor Demais”, por exemplo, era para ter música de Miúcha (houve várias tentativas, e a ideia de Miúcha era a de que, embora a letra fosse “pesada”, a melodia deveria ser leve como uma ciranda, um acalanto); mas acabou sendo a única parceria do poeta com João Donato, gravada por Miúcha no disco de 1980, pela RCA.
Quem sabe até inconscientemente tenha sido essa a sua ideia: inaugurar mais uma parceria de João Donato, assim como fez ao apresentá-lo a Caetano Veloso e Gilberto Gil (cujas canções resultantes da promoção desse Encontro estão em seu primeiro compacto, de 1975, pela Philips, “Miúcha”); e, especificamente, no caso de Gilberto Gil, ao tê-lo apresentado a João Gilberto, nos final dos 60, em N. York, fato que propiciou a gravação de “Eu vim da Bahia”, de Gil, por João Gilberto, em seu renovador disco de 1973 (Phillips – aquele de capa branca), cuja atuação de Miúcha como produtora é tão fundamental e profícua (embora não creditada e incógnita) quanto sua participação vocal em Izaura, no mesmo disco.
Aliás, o nome “Miúcha”, cuja patente de operariado artístico e cujo raro talento musical/cultural já vinham sendo conhecidos aos poucos (mas por poucos), foi mesmo ampla e internacionalmente difundidos e legitimados por Tom Jobim, em seu “Urubu”, de 1976, ao abrir o disco em dueto com a “intérprete” a canção “Boto”.

Aquela voz era a de Miúcha.

E, não por acaso, sendo o disco de 1976, também serve de mote para as celebrações desses 40 anos de Música – de música oficialmente, porque de serviços prestados à cultura brasileira a data atravessa a cronologia mercadológica, e da própria vida, pois que o tempo se esgota, e já estamos em julho (o site finalmente sai em Agosto).

Sua composição mais recente é um blues, em parceria com a compositora e cantora Simone Guimarães. Absolutamente criativa e musical, Simone adaptou e musicou uma carta de Miúcha, que estava na Itália, e dessa comunicação virtual nasceu um dos mais belos blues de nosso cancioneiro popular: “Como a Vida”, também presente neste canal (https://www.youtube.com/watch?v=aDUsbxuYd7c), do incrível álbum “Clarice”, de Simone Guimarães, lançado em 2013.

Na letra, Miúcha amadurece a “palavra” no fazimento da música de Simone, e assim a canção se torna maior que a própria vida:

“ando tão estranha
tão passiva
tão bonita
como a vida
– que vontade de chorar –
cheia de poeira
cheia de pedaços:
tão inteira nos mosaicos
– que vontade de chorar –
eu não sou daqui
nem sou daí
eu venho de Santa Maria,
de Trastevere, São Paulo,
– venho vindo lá do mar…”

Enfim, o retrato de Miúcha quando poeta ou letrista reverbera um pouco o 3×4 do quase invisível Newton Mendonça – sim, fotografada em “Rolleiflex” que a desmemória brasileira insiste em desafinar em esquecimento (alguém duvida que a “letra” de Newton Mendonça inaugura uma forma estética renovada e moderna de se pensar “palavra” com foco cancional de pegada e harmonia e “batida” diferentes do tudo que sabia no antes da Bossa Nova como estética, e não como “movimento” anacrônico?) – talvez sim, mas esses retratos, mesmo em PB, são e ficam indeléveis em sua funcionalidade na história da cultura e da música brasileira, enquanto houver quem trabalhe certo e escreva “direito”.
E por isso é preciso escrever e repetir e escrever novamente – como faziam Lena Frias, Ary Vasconcelos, Roberto Moura, Arley Pereira, ou seja, gente séria que não está mais aqui para fazer isso (eu trabalhei com todos eles, e aprendi o rigor que se deve ter com a informação correta).
E por isso este texto. Este trabalho. E por isto esta comemoração, que é o desenho de uma linha cronológica repleta de notas musicais, sim, muitas, porém essenciais para o acontecimento de muitas pautas e partituras imprescindíveis para a compreensão dessa grande e confusa “rapsódia” que é a música popular brasileira – da qual Heloísa Maria Buarque de Hollanda é uma das peças fundamentais no campo das aproximações de afinidades que geram fatos históricos, bem como contumaz realizadora de ações espontaneamente geridas por ela, e imprescindíveis para trajetórias estéticas no delineio do que se convencionou “história da canção popular”: o show do Canecão, por exemplo, nasceu do sucesso de seu primeiro disco com Tom. E foi sugestão de Miúcha a indicação da dupla “Vinicius e Toquinho” para a participação do musical que se tornou emblemático.

Porém, a “composição” de Miúcha, dessa vez, foi alinhar, conceitualmente e de modo contemporâneo, a obra de Vinicius de Moraes em seu historicismo estético que, àquela altura, estava um tanto desairoso: convenhamos que os discos com Toquinho andavam um tanto diversificados em tongas da mirongas e tardes em Itapuãs conceitualmente desataviadoras, em se tratando de um poeta que virou letrista e que, naquela época, já estava em seu ocaso!

No show do Canecão, de 1977, gravado em LP, com direção de Aloysio de Oliveira, Vinicius teve sua obra revista, balizada em suas canções com parceiros fundamentais: Tom, Lyra, Baden (presente em parcerias no show integral), Toquinho, com direito às modernidades de Chico e Caetano Veloso, eles também “gente humilde” de Garoto, filhos do mesmo “Dia da Criação” de um Vinícius também de um “antanho literário” – e que há muito não se revisitava.

Nota-se que, após este disco, Vinicius grava apenas mais um disco – comemorativo de 10 anos de parceria com Toquinho -, e um último, no qual ele já surge como nome sucedâneo: “Toquinho e Vinicius – Um Pouco de Ilusão”, ilusão que chega a confundir até hoje os ouvintes que acreditam ser de Vinicius a letra do samba Escravo da Alegria, por ele gravado – porém, com letra de Mutinho.

Enfim… a a sugestão de Miúcha para a inclusão dupla no show do Canecão foi mais que uma bela canção: foi uma Ópera de inestimável valor à REVISÃO DEFINITIVA da obra do poeta / cancionista para as gerações daquele período, até hoje (é um disco que nunca saiu de catálogo, saibamos).

“Ópera” de operário, em constante “linha de montagem” que, inclusive, muito desconhecida também, é o nome de uma linda parceria de Novelli com Chico Buarque, gravada, claro, por Miúcha em 1980, e bastante atual e propícia para este este momento histórico que estamos, aos trancos e golpes, a viver. Recentemente, descobri duas canções inéditas de autoria de Miúcha: Sonho de Valsa, cantada em show da Funarte – projeto Seis e Meia – realizado com Carlinhos Vergueiro; e uma recém-descoberta parceria com Cacaso.

Mas a gente vai levando, como nos ensinaram Tom e Miúcha.

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Sobre os primeiros discos - O começo de tudo

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Miau Music Produções Musicais

Miúcha e Stan Getz – N. York – 1975

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oram dois projetos que marcaram o início da carreira discográfica de Miúcha: o Compacto duplo “Miúcha”, de 1975, lançado pela Philips – cuja capa mostra uma descontração “tropical”, de volta a um Brasil em que, acompanhada por seu amigo e arranjador Luiz Claudio Ramos, apresentou no disco o resultado de seu trabalho essencial (e bastante discreto) de aproximar parceiros para novas criações. Assim fez ao apresentar seu amigo João Donato aos ainda tenros baianos Gil e Caetano, processo que resultou nas primeiras parcerias das duplas dobradas: “Naturalmente” de Caetano com Donato, e “Lugar Comum”, essa com Gil.

Vejam: Essas parcerias se efetivam a gerar mais canções futuras, algumas delas intepretadas (mas não gravadas) por Miúcha, anos depois em shows no Japão e em Paris (“A Paz”, uma das “Leilíadas” de Donato, letrada por Gil, figurou em algumas dessas apresentações posteriores). E ainda de quebra apresentava um dócil Péricles Cavalcanti (que havia sido gravado apenas por Gal em 1973), na lúdica “O que quer dizer”, que marca a estreia de Bebel Gilberto como intérprete, em dueto com a mãe, aos nove anos. E, claro, não poderia faltar Tom Jobim, aquele que realmente legitimaria, no ano seguinte, o nome “Miúcha” como patente de inexorável talento e patente: pois a “Correnteza” de Jobim e Bonfá, presente neste compacto – ainda com feições experimentais e vanguardistas – ainda não fixaria “Miúcha” como “marca” e “nome” da intérprete que, em dueto vocal com Jobim em “Boto”, no antológico LP “Urubu”, do maestro soberano (1976), aconteceria de forma natural – inclusive a equalizar a diferença entre a “morena praieira” da capa do compacto de 1975 em contraste com a “comportada” cantora, em trajes e cabelos aos moldes “norte-americanos”, a figurar ao lado de João Gilberto e Stan Getz, no LP “The Best of Two Worlds”, lançado pela CBS em 1976 (entre celeumas entre João e Getz antenuados por uma Heloísa Miúcha de nome elidido na capa, porém de inconteste co-produção direta para que o projeto se consolidasse).

Aliás, esta vai ser uma atuação também “obscena” de Miúcha, quando o termo a possibilita uma atuação funcional “fora da cena”, em bastidores caracterizados por idas e vindas e voltas do Brasil para os Estados Unidos, de modo a promover o acontecimento desse disco no qual canta, em perfeito inglês e em estética interpretativa já definida, 4 das dez canções do LP – inclusive Isaura, aqui em inglês, mas que três anos antes já figurava no renovado modernismo de um João em LP lançado pela Philips (logicamente com co-produção direta de Miúcha, que não apenas cedeu o estúdio de gravação – que a ela estava destinado para seus primeiros registros como intérprete de um disco LP inaugural, que quase aconteceu -, bem como apresentou a João a até então desconhecida “Águas de Março”, de um tom de Tom Jobim levado na mala de Miúcha, em forma de compacto lançado pelo Pasquim. E foi quando, também, apresentou Gilberto Gil a João, de quem gravou o belo samba “Eu Vim da Bahia”, única composição de Gil gravada por João Gilberto.

Enfim, Miúcha trabalhou cuidando da música brasileira, ou da psique da música brasileira que se transformava, ainda, de modo a sinalizar novos rumos a novos baianos que viriam, a novas portas que se abririam para consolidar aquilo que, no pós-movimento dos Festivais dos quais ela não teve nem tempo de acompanhar (tampouco de participar), ganharia a abreviatura de MPB – ou Música Popular Brasileira, que para Miúcha, logo depois de se desvencilhar de João, será um produtivo campo de pesquisa e mapeamento, especialmente em sua parceria com Tom Jobim, logo em seguida, em discos cuja atenção voltava-se ao “compositor popular”, em toda produção cujo foco cancional abrisse possibilidade de experimentos e descobertas tanto para Miúcha como para seu parceiro Tom Jobim.
Mas aí a história são de capítulos seguintes…

As Bacantes de Hocardes no Canecão - Olimpo

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Foto: Carlos Horcardes

Carlos Horcades é poeta da imagem que radiografa alma por natureza – e não por costume (para sacar o lance, ouçam o “Pela Décima Vez” do Noel Rosa, de preferência na gravação de Aracy de Almeida ou Cristina).

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então ele cria peixes em aquários imensos que são suas retinas preservadas em oceanos privados (sim, porque poeta simplesmente, na essência de sua condição – sem rococós de veleidades costumeiras – não suportamos isso! -, e no desempenho prescrito de seu ofício –, Carlos recolhe “obviedades” perdidas ou esquecidas ou recalcadas no breu de um terreno paralelo ao qual acessa, trazendo-as à Luz da exatidão da pureza da Imagem.

Sua obrigação.
Seu trabalho.

Serviço de escuta aberta que retrata o som da música intrínseca a cada “canção da vida”, que ele deflagra, que ele desvela e desnuda, qual um Montagne a tratar da Amizade em Ensaios que ninguém mais lê. Mas que ele sabe.

E a fotografia, então, nunca foi nem será ornamental, como muito se “rotulam” seus cavalos-marinhos gregos-oraculares e suas sereias-afrodites disfarçadas de dourados ou acarás amarelos… eu já vi esses oceanos de Carlos, e dizem que é lá dentro deles que o Sol de Maiakovski faz seu ocaso, para se travestir de Lua e inventar as noites dos Camarins do show do Canecão em 1977…

Sim, que aqui atravessam marés do tempo em aços de abraços a soldarem, a ferro e fogo, inexoráveis elos de afago e afeto:

Telminha, Georgiana e Cristina.

Aqui desenhadas na boniteza flamejada pelas “lentes” de Carlos, esse operário a evocar bacantes no “Dia da Criação” de Vinicius-Zeus, presente nessa prosa poética de quem ouviu ou assistiu à Rapsódia do Canecão-Olimpo de 77:

…e no movimento desse momento da “fotografia”, são essas retinas, não duvidem, os ortivos dionisíacos de um Horcades mais divino – e, portanto, mais generoso!

Vigoroso como sempre, aliás! E sem mais…

Miau Music Produções Musicais

Que é, que é // Miúcha (1980)
  1. Que é, que é // Miúcha (1980)
  2. Canção do desamor demais // Miúcha (1980)
  3. Cabrita mal sucedida // Miúcha (1980)
  4. A paixão é sempre passageira // Miúcha (1980)
  5. Sinal de paz // Miúcha (1980)
  6. Segura a coisa // Miúcha (1980)
  7. Milagre Brasileiro // Miúcha (1980)
  8. Santo Amaro // Miúcha (1980)
  9. Todo amor // Miúcha (1980)
  10. Linha de montagem // Miúcha (1980)
  11. Joujoux et balangandans // Miúcha (1980)
  12. All of me // Miúcha (1980)