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e abordarmos os 17 trabalhos em discos realizados por Miúcha, dentre projetos solos e coletivos, e divagarmos livremente sobre seu repertório, deparamos-nos com uma urdidura refinada de canções que entrelaçam e espelham momentos não apenas de sua carreira, mas dos diferentes tempos da cultura e da produção criativa de um país que, desde suas primeiras incursões como cantora, ainda que informalmente nos anos 1960, já se alicerçava na efervescente bossa nova, da qual alguns clássicos compunham seus roteiros em pequenos shows em Paris, tempos que viveu na Europa para estudar História da Arte, cantar em bares parisienses, experimentar diferentes culturas, conhecer e conviver com artistas diversos – e dentre eles a cantora e compositora Violeta Parra, que cantava no bar La Candelaria, lugar onde inclusive conheceu João Gilberto.

A comemoração dos 40 anos de carreira discográfica de Miúcha abrange o biênio de 2015/2016, pois a cantora se ateve à produção de dois trabalhos concomitantes neste período: seu primeiro compacto duplo, de 1975, inaugurador de uma fase nova em sua carreira, ao revelar parcerias inéditas de João Donato com Caetano Veloso e Gilberto Gil, preservando seus matizes referenciais ao estrear Correnteza, de Jobim e Bonfá, e apresentando ao público um lúdico Péricles Cavalcanti na inédita “O que quer dizer”, na qual debutava, também em disco, aos nove anos, Bebel Gilberto em dueto com a mãe. Porém, neste mesmo período, outro processo se desdobrava em Nova York, com a gravação do LP The Best of Two Worlds, lançado em 1976, no qual a cantora figurava ao lado do saxofonista Stan Getz, e de João Gilberto, com quem na época era casada, atuando em quatro das dez faixas do LP. A elisão de seu nome foi sobrelevada pelo impacto da interpretação comedida e peculiar de Miúcha que, com seu inglês de pronúncia impecável, abraçou versões em inglês de Chovendo na Roseira e Águas de Março, de Jobim, bem como a já anteriormente gravada – e tornada clássica em duo com João Gilberto, em 1973 – Izaura (de Herivelto Martins e Roberto Roberti); e ainda com direito a uma interpretação especialíssima de Just One of Those Things, clássico de Cole Porter. A participação rendeu à cantora importantes shows ao lado de Stan Getz, com destaque para sua atuação no Newport Jazz Festival. Miúcha firmava, discretamente e a seu modo, sua presença efetiva no cenário da música popular brasileira, consolidando, com originalidade, uma proposta estética que abrangia desde suas formas interpretativas à escolha conceitual de repertório, guiada pela coerência de uma artista que teve, dentre refinados estilos e gêneros, a bossa-nova e o jazz como principais referências de sua formação musical.

Sua trajetória agrega fatos históricos de nossa música e acontecimentos biográficos, sendo impossível pensar em Miúcha sem recordar, a princípio, que a casa dos pais – o historiador Sérgio Buarque e Maria Amélia – primava pelo alto nível musical. E foi nessa época que, além de conhecer Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi, assíduos frequentadores da casa da Rua Buri, Miúcha começou a experimentar, ao violão, um eclético repertório brasileiro, acompanha pelos irmãos Chico Buarque, Ana de Hollanda e Cristina, nomes que, algum tempo depois, também se estampariam no cenário de nossa música popular.

Carioca de berço, aos oitos anos mudou-se com a família para São Paulo, e pouco mais tarde, em 1952, para Roma, onde teria seus primeiros contatos com a Europa, relação que se estreitou ao receber, do governo francês, já em 1960, uma bolsa para estudar História da Arte na Sorbonne e na École du Louvre. Mas foi uma década mais tarde que Miúcha enveredou pela produção discográfica, estreando nos já referidos compacto solo e LP com João Gilberto e Stan Getz, tomando a cena novamente, em 1976, agora em sofisticados vocais no disco Urubu, de Tom Jobim, com quem dividiu a faixa O Boto, primeira canção do disco. A experiência com Tom, estreitada cada vez mais pela amizade entre a cantora e o mastro, teve continuidade no LP Miúcha e Antonio Carlos Jobim, de 1977, que a princípio seria um projeto solo de Miúcha, com participação do maestro, produzido por Aloysio de Oliveira. Mas a presença de Tom foi ficando cada vez mais constante, fato que consolidou de vez a parceria dos dois, rendendo um LP com doze canções dentre composições de Jobim, Vinicius de Moraes (destaque para a clássica, e definitiva, gravação de Pela luz dos olhos teus), Custódio Mesquita, Ary Barroso, Nelson ngelo, com direito à participação de Chico Buarque na até então inédita Vai Levando (parceria de Chico com Caetano Veloso), em Sei lá (de Vinicius e Toquinho), e em Maninha (canção de Buarque que ficou conhecida neste disco, pelo dueto do compositor com a irmã).

No mesmo ano, o duo Jobim-Miúcha respirou novos ares, agora levado aos palcos, também pelas mãos de Aloysio, em show realizado no Canecão, com Vinicius de Morais e Toquinho. Nesse espetáculo, Miúcha revisitava os carros-chefes do disco de estúdio, rapidamente transformados em clássicos populares: Pela luz dos olhos teus, essa um composição de Vinicius de Moraes; e Saia do Caminho, samba-canção de Custódio Mesquita e Evaldo Rui originalmente gravado por Aracy de Almeida, e transformado em hit por Miúcha e Tom quase três décadas depois de seu primeiro registro.

O espetáculo ficou quase um ano em cartaz no Canecão, com turnê pela América do Sul e Europa, resultando no LP ao vivo Tom, Vinícius, Toquinho, Miúcha – Gravado Ao Vivo no Canecão. E o ano de 1977 foi repleto de novos trabalhos, e Miúcha atuou na peça infantil Os Saltimbancos, com versões de Chico Buarque para melodias de Luiz Enriquez e Sergio Bardotti, intepretando a galinha, um dos personagens da história, ao lado de Marieta Severo, Antonio Pedro e Grande Otelo. O projeto originou o LP homônimo, que contou com as participações de Nara Leão, de Chico Buarque e do grupo MPB-4.

O segundo disco com Jobim sairia em 1979, com arranjos de Claus Ogerman, gravado em Nova York e também sob produção de Aloysio de Oliveira. Miúcha & Tom Jobim emplacava mais um sucesso: Falando de Amor, de Tom Jobim, cuja gravação com Miúcha se tornou um clássico sempre presente e referenciado. Como nove faixas, o disco contava também com Dinheiro em Penca (de Jobim e Cacaso), Sublime Tortura (de Bororó), Triste alegria, composição da safra autoral de Miúcha, com destaque para a marcha Turma do Funil, de Mirabeau, com direito à introdução composta por Chico e Tom, releitura conceitual que originou o espetáculo A Turma do Funil (Falando de Amor), estrelado por Miúcha, Cristina Buarque, Danilo Caymmi, Nelson ngelo, Novelli, Francis e Olivia Hime, dirigido por Benjamim Santos e em cartaz no Teatro Ipanema.

O compacto Cálice, de 1978, trazia duas gravações especiais e inéditas: a faixa-título de Chico Buarque e Gilberto Gil, gravada em duo com Bebel Gilberto, com arranjo de Luiz Cláudio; e Sol da meia-noite, versão do stnadart Midnigt Sun feita por Aloysio de Oliveira, que integrou a trilha sonora da telenovela Pecado Rasgado, e contou com arranjos e vocais de Tom Jobim.

Abrindo a década seguinte, o LP Miúcha, lançado em 1980, apresentava arranjos de João Donato, participação de Bebel Gilberto na faixa Joujoux et Balangandans (de Lamartine Babo), e do violão de João Gilberto nas faixas Disse Alguém (versão de Haroldo Barbosa para All of me) e O que é, o que é, de Bororó. Duas músicas compostas por Miúcha, Todo amor e Segura a Coisa, respiravam harmoniosamente com sambas de Nelson Cavaquinho, João Donato e Cacaso, com direito aos “palpites” de Chico Buarque sob heterônimo artístico de um certo Julinho da Adelaide, autor do presente samba Milagre Brasileiro.

A marcha Segura a Coisa, de sua autoria, hino do bloco de mesmo nome do Carnaval de Olinda, originou o compacto homônimo, de 1982, no qual constava, também, a faixa No Carnaval de Olinda, também de Miúcha, trabalho produzido por Homero Ferreira. Em 1989, o musical Yes, Nós Temos Braguinha aproximou ainda mais Miúcha do compositor João de Barro, com quem se apresentou, juntamente com o conjunto Coisas Nossas, sob direção de Ricardo Cravo Albin. O encontro também resultou no especial televisivo A flor do tempo – Braguinha, no qual o diretor Fernando Faro juntou, ao grupo do musical, à cantora e ao compositor homenageado, as “irmãs de Hollanda” Cristina, Ana (Baía) e Pií.

O projeto de um disco com orquestra aconteceu m 1989, com o LP / CD Miúcha, lançado pela Continental, trabalho que contou com as participações especialíssimas de Pablo Milanés em Buenos Dias América (autor também de Para Vivir, presente no disco), e de Bebel Gilberto, em vocais de Saudosismo (Caetano Veloso). Albert Dailey abrilhantou ainda mais a leitura de Solitude, clássico de Billie Holiday gravado por Miúcha e o pianista nos anos 1960, recuperado para este disco, recentemente relançado em CD pela Warner Music, em edição comemorativa dos 40 anos de carreira da cantora. Ainda nesse trabalho, Miúcha daria foco à obra do compositor Guinga, sendo a primeira cantora a gravar as inéditas Por Gratidão, Non Sense e Porto de Araújo, parcerias com Paulo César Pinheiro.

A difusão cada vez mais ampla da bossa nova no exterior enfatizou a obra de Miúcha, cujos LPs passaram a ter tiragens em CDs independentes, especialmente no Japão, onde Miúcha passou a se apresentar constantemente nos anos 90, processo que resultou no belíssimo CD Rosa Amarela, de 1999, com referência ao samba de Capiba, A Mesma Rosa Amarela, quarta faixa do CD. O samba e o choro se tornaram eixos conceituais desse disco de transição, no qual Miúcha contemplou peças de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho (Pressentimento), Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro (Cabrochinha), Paulinho da Viola (Só o Tempo), além das belíssimas regravações de João e Maria (de Sivuca e Chico Buarque), Choro Bandido (de Edu Lobo e Chico Buarque), e Santo Amaro (de Luiz Cláudio Ramos, Franklin da Flauta e Aldir Blanc), choro que já havia gravado originalmente no LP de 1980.

Integrada aos movimentos comemorativos sobre bossa nova, nesse mesmo ano Miúcha passeou pelo repertório de seu mestre e amigo Vinicius de Moraes, dividindo o palco com Baden Powell, Toquinho e Carlos Lyra no show Vivendo Vinicius ao vivo, lançado em CD duplo pela BMG também em 1999.

A década seguinte é inaugurada pela parceria da cantora com a gravadora Biscoito Fino, onde gravou o CD Miucha.compositores, em 2002, projeto centrado na canção popular, com ênfase em releituras sobre clássicos do cancioneiro da primeira metade do século XX (Cor de cinza, de Noel Rosa, e E daí, de Miguel Gustavo, emblemáticos sucessos de Aracy de Almeida e Isaurinha Garcia), peças pouco conhecidas da bossa nova como Solidão (de Tom Jobim e Alcides Gonçalves), A dor a mais (de Francis Hime e Vinicius de Moraes) e Pode ir (de Carlos Lyra), além das recentes Fox e Trote, irreverente parceria de Guinga e Ney Lopes, e Você Você, também de Guinga, com letra de Chico Buarque. Nesse mesmo ano, Miúcha atuou na produção do documentário Raízes do Brasil, sobre seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. E no ano seguinte, mais uma surpresa: Pela luz dos olhos teus, de Vinicius de Moraes, um dos clássicos de seu repertório (gravado em 1977, com Tom Jobim) volta a ocupar as paradas de sucesso ao ser tema de abertura da telenovela Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo, quase trinta anos depois de seu primeiro registro.

E para as comemorações dos 90 anos de Vinicius de Moraes, Miúcha lançou, em 2003, o CD Miúcha canta Vinicius & Vinicius – Música e letra, trabalho pioneiro que evidenciou o foco cancional do poeta como letrista e melodista em temas como Medo de amar, Valsa de Eurídice e Tomara; lembremos que Miúcha também foi a primeira a deflagrar essa pouco conhecida particularidade de Vinicius, tendo emplacado a já mencionada Pela luz dos olhos teus na década de 70.

Quatro anos depois, Miúcha lança o CD Outros Sonhos (2007, terceiro CD pela gravadora Biscoito Fino, e sexto trabalho solo de sua carreira), com roteiro elaborado sobre obras de Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A presença marcante do piano em arranjos de Cristóvão Bastos, Leandro Braga, Itamar Assiere e Paulo Jobim enfatizam a sofisticação da proposta conceitual do disco, “equilibradamente jazzístico” como afirmou a crítica, em peças como Gente Humilde, Desalento, Outros Sonhos, Você Vai Ver, Chansong (essa com participação vocal de Chico Buarque), Anos Dourados e Olha Maria (rara parceria dos três compositores que tematizam o projeto).
Atualmente, apresentou-se em musicais com participações de Renato Braz e Georgiana de Moraes, com atuações em festivais de música em Portugal e Angola. Dedica-se aos relançamentos de seus discos em edições especiais – em comemoração às quatro décadas de sua trajetória artística –, e ao lançamento de seu site-acervo miuchabuarque.com, a ser lançado em janeiro de 2016.

Ao longo desses 40 anos de carreira, Miúcha celebrou a vida, a arte e os amigos, em projetos coletivos, parcerias e discos de carreira que, compromissados com a música popular – suas raízes e confluências –, desenham um delicado prisma sobre nossa cultura, e espalham a alma brasileira, essa deflagrada por sua sensível percepção artística e, claro, pelo extremo bom gosto presente em cada um de seus trabalhos.

Que é, que é // Miúcha (1980)
  1. Que é, que é // Miúcha (1980)
  2. Canção do desamor demais // Miúcha (1980)
  3. Cabrita mal sucedida // Miúcha (1980)
  4. A paixão é sempre passageira // Miúcha (1980)
  5. Sinal de paz // Miúcha (1980)
  6. Segura a coisa // Miúcha (1980)
  7. Milagre Brasileiro // Miúcha (1980)
  8. Santo Amaro // Miúcha (1980)
  9. Todo amor // Miúcha (1980)
  10. Linha de montagem // Miúcha (1980)
  11. Joujoux et balangandans // Miúcha (1980)
  12. All of me // Miúcha (1980)