Miúcha – QUANDO A ARTE ATRAVESSA O TEMPO

Por Miau Music Produções Musicais

Porque tudo há de ser sempre surpresa, poesia, presente e afago bom em forma de música: com Miúcha é assim. Não por acaso, ao pesquisar suas participações em discos de amigos músicos, cantores ou projetos temáticos, encontrei quase 50 canções, o que logo deve ultrapassar essa marca, pois novos convites estão surgindo…

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 comemoração dos 40 anos de carreira discográfica de Miúcha abrange o biênio de 2015/2016, pois a cantora se ateve à produção de dois trabalhos concomitantes neste período: seu primeiro compacto duplo, de 1975, inaugurador de mais uma fase especial em sua trajetória artística, ao apresentar parcerias inéditas de João Donato com Caetano Veloso e Gilberto Gil (resultado da estreita aproximação entre os compositores e a cantora, que os apresentou ao amigo Donato, ocasião das primevas Lugar Comum, com Gil, e Naturalmente, com Caetano), mas também preservando seus matizes referenciais ao estrear Correnteza, de Jobim e Bonfá, e revelando ao público um lúdico Péricles Cavalcanti na inédita O que quer dizer, na qual debutava, também em disco, aos nove anos, Bebel Gilberto, em seu primeiro dueto com a mãe.

E foi com essa música que Bebel arrasou, em estreia artística ainda informal, em único número com Stan Getz e Miúcha, em show realizado em Nova York…

Sim, porque se estivéssemos em uma filmagem (de proposta certamente Felliniana, com toques de Allen e François Truffaut), a câmera agora focalizaria Miúcha, nesta mesma fração ininterrupta de tempo em outro processo que se desdobrava em Nova York, com a gravação do LP The Best of Two Worlds, lançado em 1976, no qual a cantora – sem crédito na capa – figurava ao lado do saxofonista Stan Getz (cujo enunciado do disco parece privilegiá-lo como anfitrião e figura central do projeto), e de João Gilberto, com quem na época era casada, no qual Miúcha interpreta quatro das dez faixas do LP. A elisão de seu nome foi sobrelevada pelo impacto da interpretação comedida e peculiar de Miúcha que, com seu inglês de pronúncia impecável, abraçou versões em inglês de Chovendo na Roseira e Águas de Março, de Jobim, bem como a já anteriormente gravada – e tornada clássica em duo com João Gilberto, em 1973 – Izaura (de Herivelto Martins e Roberto Roberti); e ainda com direito a uma interpretação especialíssima de Just One of Those Things, clássico de Cole Porter, conhecida popularmente pela gravação de Sinatra até então.

Esta participação rendeu à cantora importantes shows ao lado de Stan Getz, com destaque para sua atuação no Newport Jazz Festival e em outros eventos, cuja remuneração, quimérica, era realmente comutada pela experiência que Miúcha, já mãe e casada com João Gilberto, absorvia e incorporava em sua vida – e foi, aquela, uma de suas vidas mais agitadas.

Miúcha firmava, nesse tempo, discretamente e a seu modo, sua presença efetiva no cenário da música popular brasileira, consolidando, com originalidade – e liberdade –, uma proposta estética que abrangia desde suas já inerentes formas interpretativas à escolha conceitual de repertório, guiada pela coerência de uma artista que teve, dentre refinados estilos e gêneros, o jazz, a música francesa e a bossa-nova como principais referências de sua formação musical.

Traçar um perfil biográfico / artístico de Heloisa Maria Buarque de Hollanda não é apenas pautar uma reta cronológica de um artista, e tampouco determinar um contexto histórico que situe sua trajetória, mas sim pensar e retratar todos os tempos que, sem tempo para qualquer contratempo, se desdobraram na atemporalidade de fatos e afetos no mundo e na vida de “uma moça chamada Heloisa Maria, que o pessoal só trata de Miúcha”, como disse Jobim ao chamá-la ao palco, no antológico show realizado no Canecão, em 1977.

E uma abordagem apenas quantitativa de sua produção seria redutora ao considerarmos os 15 trabalhos em discos nos quais Miúcha atuou, dentre projetos solos e coletivos. Porém, nota-se que em todos eles, a intérprete baliza equilibradamente sua presença, em movimento medular sempre conectado à criação coletiva. E sua discografia completa não seguiu em consonância com o ordenamento mercadológico; e sem qualquer contrariedade de ordem crítica às produções que seguiram e seguem tais critérios, Miúcha se orientou, essencialmente, pela liberdade criativa que ligava sua arte ao contexto que viveu e vive. E com este olhar, conseguimos apreender e situar Miúcha a atravessar, suspender tempos, e até a rebobiná-los, despretensiosamente, a serviço de uma arte que canta e reflete os contornos empíricos da criatividade de todos os momentos de suas histórias, e de suas vidas.

E essas, por ser Miúcha uma artista brasileira, respiram e espelham narrativas relevantes da “História” seu país – porém, de forma amena, em fruitiva energia que lhe permite o bom humor e a alegria como mecanismos de sublimação e engenhosas ferramentas para se “dizer” o que, porventura, pode ser “interdito”: assim, não nos surpreende que a intérprete e atriz da atarantada e “politizada” Galinha da peça musical “Os Saltimbancos”, de 1977, registre, no ano seguinte, um ousado compacto no qual divide com a filha Bebel a interditada Cálice (de Gilberto Gil e Chico Buarque), em arranjo e interpretação que oculta, somente aos “incautos”, o acintoso mote da canção (E, quem sabe, no “tempo da maldade em que a gente nem tinha nascido”, esse “Pai”, entoado apenas por Bebel, possa resvalar, de leve que seja, aquele genitor que aterroriza os irmãos em “Maninha”, que Chico fez para Miúcha, gravado por ambos, poucos anos antes, em disco da cantora com Tom, de 1977?).  

Por outro viés, também não nos sobressalta que, em seu LP de 1980, lançado pela RCA, seja possível naturalmente ouvir a célebre batida do violão de João Gilberto em Disse Alguém (versão de Haroldo Barbosa para o standart All of me), bem como no desconhecido samba O que é?, de Bororó.

Porque tudo há de ser sempre surpresa, poesia, presente e afago bom em forma de música: com Miúcha é assim. Não por acaso, ao pesquisar suas participações em discos de amigos músicos, cantores ou projetos temáticos, encontrei quase 50 canções, o que logo deve ultrapassar essa marca, pois novos convites estão surgindo…   

Entrelaçando e revertendo os tempos do indiviso tempo de sua coerência “bioartística”, tampouco nos surpreende que a experiência da “voz” a delinear o Boto em duo com Jobim, no antológico disco Urubu, de Tom, de 1976, aproxime ainda mais os dois artistas – parceiros e amigos de vida e arte – a ponto de tornar o que seria o primeiro LP solo de Miúcha em um disco partilhado com Tom, lançado em 1977, a emplacar sucessos impremeditados. Um deles, o samba Pela Luz dos Olhos Teus (de autoria integral de Vinicius de Moraes, e gravado por ele, em 1967, em seu LP de estreia), agora rearranjado em brejeira “valsa” por Jobim, com vocal em dueto com Miúcha, destacou-se naquele ano, integrando a trilha sonora da novela Dona Xepa, alcançando ampla e perene popularidade, e reaparecendo, quase trinta anos depois, em abertura da novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, em 2003, provocando boas sensações mnêmicas em muitos, e se apresentando “pela primeira” vez aos que ainda não conheciam o tema. Sim, porque as gerações se sucedem, as tecnologias avançam, e lá está Miúcha sintonizada, sendo cantarolada por todas as juventudes que, ao “curtirem MPB”, têm em seus repertórios particulares um ou dois clássicos de Miúcha. Eu já fiz este teste. E também já fiz parte de uma dessas “galeras” – e digo isso enquanto acesso um de seus discos em meu dispositivo virtual: e ela está em todas!

Com o acontecimento espontâneo dos “sucessos” do disco, abria-se, naquele momento específico, um interessante canal de comunicação com as grandes massas populares, tanto para Miúcha quanto para o próprio Tom: a veiculação de música em trilhas sonoras de produções teledramatúrgicas, eficaz instrumento que, no mesmo ano do lançamento do disco, também emplacou o samba Vai Levando como tema de abertura da novela Espelho Mágico, parceria de Caetano Veloso e Chico Buarque, esse a participar da faixa, como também em outras deste LP Miúcha & Antonio Carlos Jobim, um dos principais lançamentos fonográficos de 1977.

Com Tom Jobim, Miúcha foi a única cantora a gravar três discos. Diferencial que se agrega ao fato de também ser a única intérprete a cantar com Tom, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Resultado de algum planejamento de carreira? Não. Mas sim de uma fluência natural em que vida e arte acontecem e se expressam num movimento contíguo. Bebel Gilberto é filha de João com Miúcha, que é filha do historiador Sérgio Buarque de Hollanda e Maria Amélia Alvim, pai e mãe também do compositor Chico Buarque, e das cantoras Cristina e Ana de Hollanda, e de mais outros três filhos brasileiros, e de um filho “alemão” que já tematizou livro e agora se renova em gerações que se entrelaçam em encontros e sucessões. E seria fatigante enveredarmos pelas ramificações dessa árvore agregadora e frutífera, sondagem pormenorizada que concentramos na “Cronologia” da artista, também presente neste site.

Pois se nos orientássemos por uma “linha de tempo” para compreender as afluências artísticas de Miúcha, não nos seria possível ter uma visão inteligível acerca de seus rumos artísticos, que se entrelaçam, recobram-se e dialogam, num aparente desalinhamento que se organiza quando visto por um caleidoscópio em que peças diversas e cromatizadas se ordenam, coesamente, em sons e sentidos, vidas e artes: em 2007 reuniu, em repertório de seu mais recente CD, Outros Sonhos, peças de três compositores brasileiros – e cariocas: Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, cujo espetáculo musical continua em atividade, agregando novas participações em eventos apresentados em São Paulo, por exemplo, com presença marcante do cantor Renato Braz, em 2015.

Pois que ao desvelar a confluência das poéticas dos três compositores que tematizam seu disco, Miúcha não só expõe e frui construtivamente de personagens e objetos de seu universo afetivo – os três autores fazem parte de sua história –, como também possibilita uma diversidade de desdobramentos estéticos a partir da ideia central de juntar as obras desses três criadores – unidos em parceria apenas por uma composição (a valsa Olha Maria), mas que, entre si e individualmente, atuaram vigorosamente na consolidação de nossa música popular: substrato e motor do processo criativo da artista.

Por esse viés, é possível enxergar em Miúcha uma intérprete que trabalha com ideias, com ações inventivas que conferem pluralidade funcional ao seu trabalho: não por acaso é, junto com Maria Bethânia, produtora e idealizadora do disco Namorando a Rosa, projeto sobre obra da violonista e amiga Rosinha de Valença, de 2004; bem como co-produziu, com Nelson Pereira dos Santos, o documentário Raízes do Brasil, sobre seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda; e com o mesmo diretor, roteirizou o documentário A Música Segundo Tom Jobim, em 2011… Isso sem falar de seus ensaios e textos presentes em livros e revistas, ou de seus desenhos a ilustrarem livros infantis e por aí vai.

Ah, não esqueçamos que Miúcha é personagem de alguns livros, biográficos e ficcionais. E sempre como “ela” mesma. Em HO-BA-LA-LÁ – À procura de João Gilberto, do saudoso alemão Marc Fischer, Miúcha se envereda em tramas e interessantes entrechos. É só conferir!

Desde cedo, Miúcha se comprometeu, ainda nos tempos de garota – quando ensinava o irmão Chico a tocar os primeiros acordes no violão – com a “canção popular”, a mesma que, na década de 1960, levou-a para os bares parisiense, principalmente para o La Candelária, onde conheceu Violeta Parra, seus filhos Isabel e Angel, e, como sabemos, João Gilberto, com quem se casou, gravou, viveu em Nova York e no México, fez shows e uma filha também cantora, reconhecida internacionalmente, chamada Bebel Gilberto. E tudo isso porque, a princípio, foi estudar História da Arte na Sorbonne e na École du Louvre, em Paris. E estudou, sim. Mas fazer arte também fosse, ainda talvez, um inconfessável desejo. Vontade que se concretizou: e lá estava a moça Heloisa Maria dançando frevo em um festival de música brasileira aos moldes “folk” na Europa, ou cantando nas ruas da Grécia, entoando um repertório “estranho” aos nativos: era a bossa nova, com a qual Miúcha já mantinha profunda intimidade.  

Sempre avessa a qualquer anacronismo, Miúcha nunca apresenta seu “último disco”, mas sim seu projeto atual, esse a dialogar conceitualmente com a unidade do conjunto de sua obra: seu disco de 1988 já anunciava um inventivo Guinga em seis parcerias com Paulo César Pinheiro (duas gravadas, mas não lançadas no LP: Fonte Abandonada e Moça Lua – agora presentes no CD relançado em Outubro), peças que passaram a integrar um elidido e velado conjunto de canções (por questões pessoais dos autores) que só seriam reorganizadas, tempos depois, pela cantora paulistana Mônica Salmaso; efeito análogo ocorre com a inauguração de Sublime Tortura, de Bororó, batizada e gravada em seu segundo disco com Tom Jobim, em 1979, aprendida e regravada por Nara Leão, com o mesmo título atribuído pela dupla. E, para arrematar, o seu Disse Alguém de arrebatadora abertura em seu LP de 1980, com João Gilberto ao violão, também figurou, no ano seguinte, no repertório de Brasil, LP coletivo de João Gilberto com Caetano, Gil, e Bethânia.

De forma basal e paradigmática, esses seus primeiros registros generosamente fomentam novos rumos criativos, que encontram nessas gravações originais de Miúcha uma sofisticada joia sinalizadora de diretrizes interpretativas e de arranjos sempre muito proficientes aos que chegam, e aos que já chegaram e souberam captá-la.

É o captar do som da voz de uma liberdade incoercível, que sobrevoa a arte e a vida num mesmo e contínuo céu azul de entardecer… “É esse o entardecer de ‘Querida’ que o Tom me mostrava, em nossos passeios na Restinga…”, um dia Miúcha me apontou, da janela de seu apartamento. E eu aprendi.

Miúcha não teve tempo de se urdir em fantasias de Diva, porque lá fora havia o mar, e no mar havia Tom, Donato, Baden, entre botos e caboclas Juremas se espargindo em correntezas de rios e mares…mares onde deságuam, e se firmam em sólido rochedo ancestral, sua integridade e sua coerência como intérprete que se “contemporiza sempre  atemporal” – a sua voz de ontem é a mesma de amanhã e será a de agora, pois de Miúcha a voz, antes de ser som, chega-nos como energia, coisas dessas que a Quântica anda a explicar por estes tempos, mas que muito me faz compreender o sopro criador de alguns outros intérpretes, como João Gilberto e Chavela Vargas, dentre alguns poucos exemplos.

Ora, ao ouvirmos o show do Canecão, com Vinicius, Tom e Toquinho, gravado e lançado em 1977, podemos sentir a potência de sua atuação em sintonia com outros projetos aos vivo e coletivos posteriores, como no caso do show, realizado duas décadas depois, com Baden Powell, Carlos Lyra e também Toquinho, sendo Vinicius de Morais agora o tema da homenagem lançada no CD Vivendo Vinicius ao vivo (1999): basta sentirmos o vigor e a intensidade de sua interpretação de O amor em paz, em primeiro registro da cantora, ou quando revisita seu clássico Pela luz dos olhos teus, sempre a se esmerar como se fosse a primeira vez.

E com Miúcha tudo tem sempre o gosto da primeira vez.

Em 1999, o CD Rosa Amarela, lançado no Japão por Kazuo Yoshida, com sua co-produção, trazia interpretações de Miúcha para um repertório que retratava, sob um olhar cuidadoso, um diferente Brasil “musical”, especialmente em se tratando de um projeto lançado primeiramente no exterior (não nos estranha o disco se encerrar com a faixa Querelas do Brasil, de Maurício Tapajós e Aldir Blanc).

O título do CD faz referência ao clássico de Capiba (porém pouco conhecido), A Mesma Rosa Amarela, cujo roteiro nos leva a uma viagem por gêneros e tempos múltiplos de nosso cancioneiro – de Ary Barroso e Antonio Maria, passando por um Jobim quase desconhecido (De você eu gosto, parceria com Aloysio de Oliveira), por choros e sambas de Jacob do Bandolim e Elton Medeiros letrados por Hermínio Bello de Carvalho, com direito ainda a Chico Buarque, Paulinho da Viola, e duas “surpresas” que, até para os mais assíduos ouvintes de Miúcha, soaram como abruptas “novidades”: sua primeira gravação de João e Maria, de Chico Buarque, quase sempre presente em seus shows, embora inédita em gravação de Miúcha, parecia bastante familiar em sua interpretação; e a regravação do choro Santo Amaro que, inaugurado em seu LP de 1980, agora soava com um certo frescor de estreia (além de atender ao público japonês, vidrado nesse choro composto por seus amigos Luiz Claudio Ramos e Franklin da Flauta, com quem Miúcha muito trabalhou e se divertiu em tantos shows, e com o compositor e também amigo Aldir Blanc que, como disse acima, também assina as Querelas do encerramento do CD).

Algumas nuances desse projeto – com foco em compositores brasileiros influentes e referenciais para a cantora – retomavam, de algum modo, a ideia de Tom Jobim, nos discos de 1977 e 1979, no qual um dos objetivos era o de apresentar clássicos brasileiros em novos arranjos e inventivas interpretações (o mesmo Ary Barroro se renova na releitura de Na Batucada da Vida, no disco de 77, bem como Mirabeau, Candinho e Marino Pinto passeiam livremente no repertório do disco de 79), ideia que se patenteia no CD Miucha.compositores, de 2002, no qual a artista reitera seu compromisso com a canção popular, à qual ela se entrega no cumprimento certeiro de seu ofício. Era o começo de sua fase na gravadora Biscoito Fino.

Canções de Carlos Lyra, Vinicius, Edu Lobo e Chico Buarque, Novelli, Noel Rosa e Miguel Gustavo se entremeiam, em mesmo envolvimento atemporal, com temas de Baden Powell, Guinga, Cristóvão Bastos, Tom Jobim e João Donato, esse a dividir a parceria da inédita Tempo de Amar com Miúcha, a apresentar novamente sua interface mais recatada: a de compositora.

Nessa atividade Miúcha sempre teve uma atuação discreta, porém marcante, se considerarmos sua aparição em 1961, no disco de Sérgio Ricardo, como parceira do poeta Carlos Queiroz Telles, na canção Dorme, Dorme Menininha, em fase pré-bossa nova do cantor e compositor niteroiense. Em 1979, sua Triste Alegria figurou no repertório do disco com Jobim, bem como a marcha homônima para o bloco “Segura a Coisa” e “Carnaval de Olinda” levaram a cantora novamente à composição, em compacto lançado em 1982, produzido pelo agitador cultural e amigo Homero Ferreira. Sem esquecer, obviamente, de suas incursões como letristas em experimentos com compositoras japonesas, sempre ávidas pela poética brasileira, essencialmente, da bossa-nova, de prosódia dominada por Miúcha: com Taeko Onuki compôs a atraente Berimbau do Bem, no qual, imageticamente, o “Bim Bom” de João Gilberto parece ressoar ludicamente com “Berim Bom / Berim Bem / Berim Bambu (…) / Berimbau Bom / Bim Bom”, em inconsciente diálogo com o também Berimbau de seu parceiro de arte e vida Vinicius de Moraes…esse que, inclusive, também tinha uma forma de compor especial, que Miúcha logo tratou de fazer aflorar em disco: o poeta como “letrista e melodista de suas próprias canções”.

E foi essa interface de Vinicius de Moraes que a intérprete contemplou no CD Miúcha canta Vinicius & Vinicius – Música e letra, em 2003, celebrando os 90 anos do poeta. Neste trabalho pioneiro, Miúcha evidenciou a autonomia do foco cancional de Vinicius, em temas como Medo de amar, Valsa de Eurídice, Cem Por Cento, Quando Tu Passas por Mim, e Tomara, sem esquecermos, claro, que Miúcha foi a primeira cantora a deflagrar esse lado pouco conhecido de Vinicius, tendo eternizado a já mencionada Pela luz dos olhos teus, de 1977 até os dias atuais.

Tantos discos, shows e musicais exigiram de Miúcha uma dedicação completa ao seu processo particular de estudo e entendimento da arte diante das diversas possibilidades construtivas a serem investigadas pela artista – cantora, intérprete e também atriz. Sim, atriz, e não apenas por ter interpretado, com êxito, a “Galinha” na peça Os Saltimbancos, de 1977, na qual dividiu o palco com Marieta Severo, Pedro Paulo Rangel e Grande Otelo – com sucesso de público e crítica. Mas especialmente por experimentar dinâmicas que somente o teatro possibilita ao artista, dos quais a aguçada percepção do “texto” dramatúrgico é fundamental para o bom desempenho do ator. E, no caso de Miúcha, seu texto é a “letra” das canções, em um complexo jogo de signos apurados e desvendados minuciosamente pela intérprete.

Não existe na língua portuguesa um termo que defina cantoras empenhadas nessa abordagem interpretativa (na Itália são denominadas “cantatrices”), que sem apelar diretamente para a construção “cênica”, desvelam por meio da “interpretação”, cujo centro é a “voz” e seus recursos, uma espécie de “fisicalidade” suscitada pela canção, na qual letra e música parecem ser viradas e reviradas do avesso em suas raízes e essências mais arraigadas para resultar em uma “forma de expressão” direta do que “quer dizer” a canção.

E a canção diz, por meio de intérpretes como Miúcha que, não por acaso, foi convidada para o musical Yes, nós temos Braguinha, em 1989, no qual atuava ao lado do compositor e do conjunto Coisas Nossas. O roteiro composto pela diversidade de estilos e temas da obra de Braguinha, bem como a necessidade de se significar o espaço de atuação em consonância com os demais recursos teatrais presentes no musical, levaram Miúcha a um tipo representação em que voz e corpo se conjuminavam no empenho do enredo central que, por meio das canções, era o próprio autor também em cena.

E Miúcha arrasou!

E foi neste mesmo período que Miúcha se entregou inteiramente – como sempre – a um espetáculo cênico-musical, dirigido por Túlio Feliciano, cujo roteiro se centrava nas figurações da alma feminina por meio de canções, todas essas representadas e “incorporadas” por uma Miúcha intérprete-atriz a “jogar” cenicamente com músicos (esses capitaneados pelo amigo pianista e diretor musical Helvius Vilela), usufruindo, com precisão, de figurinos diversos (alguns trocados em cena) e objetos cênicos. É impressionante a forma com que, sem jamais se desprender da canção, Miúcha não apenas contextualizava suas narrativas, como as “interpretava” se utilizando de engenhosos recursos teatrais para uma abordagem aos moldes de “cabaré”.  

Ali estava mais que a cantora – e sim a “intérprete” em sua desnudada completude, empenhada na construção de uma linguagem espetacular em que emoções e distanciamentos eram equalizados através de uma só ferramenta: a canção popular. E, como diretor teatral, função que exerço junto ao trabalho jornalístico, confesso: é uma árdua tarefa para um ator. E para um cantor, quase impossível.

Mas não para Miúcha.

Há poucos dias, examinando seu acervo particular de fitas K7, encontrei diversas gravações de um mesmo show, realizado em sua estada no People, na década de 1990, e em cada uma de um conjunto de oito fitas constava o mesmo repertório dos shows gravados, dia por dia da temporada, com diferenças de falas e tempos, o que me motivou a lhe perguntar a razão de tais registros. Miúcha então me contou que gravava o show da noite para reouvi-lo durante a madrugada, em busca do aperfeiçoamento de sua interpretação para show do dia seguinte.

Lembrei-me da responsabilidade que todo artista deve ter, conforme aprendi com alguns de meus mestres diretores de Teatro. Lembrei-me que, em algumas de nossas aulas privativas e gravadas, Myrian Muniz utilizava a versão de Olhos nos Olhos na interpretação de Miúcha com Tom, para análise sobre interpretação.  

E Miúcha foi minha constatação prática. Silenciei, e compreendi tudo. E de uma vez.

Miau Music Produções Musicais

Que é, que é // Miúcha (1980)
  1. Que é, que é // Miúcha (1980)
  2. Canção do desamor demais // Miúcha (1980)
  3. Cabrita mal sucedida // Miúcha (1980)
  4. A paixão é sempre passageira // Miúcha (1980)
  5. Sinal de paz // Miúcha (1980)
  6. Segura a coisa // Miúcha (1980)
  7. Milagre Brasileiro // Miúcha (1980)
  8. Santo Amaro // Miúcha (1980)
  9. Todo amor // Miúcha (1980)
  10. Linha de montagem // Miúcha (1980)
  11. Joujoux et balangandans // Miúcha (1980)
  12. All of me // Miúcha (1980)